O vô e a fazenda

Cresci numa fazenda.
Morei a vida inteira na cidade, mas passava as férias lá sempre que dava. Linda, dessas de fazer gosto à vista. Tão grande que ia até onde os olhos não chegam. Tinha uma rede de vôlei e um campinho de um lado. No outro, ficava o pomar em que a gente comia manga. Um caminho de terra levava até o lugar que ficavam as vacas, onde íamos de manhã pegar leite. Depois seguia até mais longe, indo pro campo de café - mas, lá, acho que só fui uma vez. Era tão enorme que vô dizia que até as montanhas eram nossas. Morro do Catatau. Hoje em dia eu até duvido, mas me lembro de ficar impressionada quando ele apontava praquele urso gigante deitado no nosso quintal. Também tinha um sauna, em que ficávamos até tarde para poder dar um último mergulho na piscina. Ideia do vô. Havia ainda uma pista de avião e um abrigo antibombas. Outras ideias do vô.

Na fazenda, o vô nos levava pra pescar no lago que tinha perto. Ensinava por a isca e a atirar a vara. A tilápia, ele que tirava do anzol. Depois, voltávamos pra casa, cansados e com fome, imaginando os peixes que teríamos pro almoço. De tarde, vô nos levava pra passear de carro. Íamos até a cidade comer pastel e voltávamos. Em uma dessas idas, ele ensinou meu irmão a dirigir. No final do dia, sentava a gente na varanda para ver as seriemas caçando as cobras, enquanto comiamos rapadura.
Mas vô era um fazendeiro incomum. Não daqueles que usam chapéu e comem capim. Não. O toque de engenheiro que tinha o deixava muito urbano naquela paissagem rural. Parecia, ali, um estranho. Era, na verdade, um homem a frente de seu tempo. Sonhava com coisas grandes, ousadas. Passava noites e noites olhando estrelas - as vezes, ele nos chamava pra acompanhar. Via os movimentos, sabia de cor as cores. Percorria os caminhos dos cometas só com o olhar. Pro vô, a fazenda era muito pequena. Fez, então, do universo o seu quintal. Decidiu virar cientista. Pôs o nome de cada neto em uma teoria. Queria explicar a física. Melhor ainda, queria reinventá-la. Lançou livros e livros, tinha escritórios e até mesmo um site. E tudo foi embora anos mais tarde.
É que vô era um homem difícil. Dizem que teimosia foi sua maior herança. Tirou a mulher do sério. Tirou os filhos do sério. Quase se tirou do sério, não fossem os netos que, vez ou outra, ficavam do seu lado até a madrugada ouvindo ele contar sobre todos seus novos conceitos. O vô era duro também, o verdadeiro homem tradicional mineiro. Não abaixava nem pra tirar os sapatos. Ele era assim e ponto. Mas nos dávamos bem. Eu e vô tínhamos um carinho muito especial um pelo outro. Quando bebê, me ensinou a nadar fugindo de mim na piscina. Me colocava no colo e me ensinou a comer doce. Mais velha, me dava uísque escondido no natal. Ele dizia que eu cuidaria de um escritório dele na França ou Austrália, era só escolher. Lembro como ficou chateado quando não quis seguir a carreira. Mas, mesmo as maiores brigas nunca eram tão grandes quanto seus abraços. E, apesar de tudo, ele era o meu vô. Ou, melhor, o meu vovô, como eu o chamava desde pequena até o último áudio que lhe mandei, na semana passada.
Vovô morreu ontem.
Lembrei do pomar, da piscina e da sauna. Do catatau deitado no quintal e da seriema comendo cobra. Do peixe no lago e do pastel na cidade. Lembrei das estrelas e de todos os cometas. Juro que vi o efeito com meu nome e pensei até no escritório que teria. Imaginei estar de volta a fazenda em Medina e sentar contigo na varanda. Só pra viver tudo isso de novo.
Descansa bem, vô Tim.

(Texto feito no dia 25 de março, em homenagem ao grande Geraldo Antunes Cacique, nosso querido Caciquinho)

Comentários

  1. Que texto mais lindo, Lua! Se o jornalismo não der certo pode investir nos contos. Me deu até saudades da minha roça querida (;

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